Gordura Saturada e Doenças Cardíacas – Uma nova visão!

A maioria de nós sabe que o risco de doença cardíaca pode ser modificado pelo estilo de vida. Por mais de 50 anos, é o que nos foi ensinado pelas pessoas em quem confiamos, cientistas, profissionais médicos, nutricionistas e funcionários de saúde pública. Mas há os céticos, que sempre fugiram do pensamento comum, ficando de fora e fazendo perguntas: Como essas pessoas sabem o que é bom e ruim para nós? Bem, é claro que estamos cientes de que sua evidência é baseada em dados científicos. Mas, os dados são confiáveis e têm sido interpretados corretamente?

Durante décadas fomos informados que a gordura saturada, o tipo encontrado na carne, manteiga e queijo (gordura animal, em geral), aumenta o risco de doença cardíaca. As autoridades de saúde pediram ao público para evitar a gordura saturada, tanto quanto possível, dizendo que deve ser substituída por gorduras insaturadas, como a encontrada em nozes, peixes, sementes e óleos vegetais (principalmente a soja). Na verdade, muitos consideram que essa informação é uma sabedoria convencional, o que basicamente significa que seria indiscutível. No entanto, pesquisas recentes desafiaram essa visão, e o debate sobre o risco associado ao consumo de gordura saturada tem crescido muito. 1)DocsOppinion

 

Um dos principais motivos da má reputação histórica da gordura saturada é a informação de que ela aumenta o colesterol LDL (o colesterol ruim), o tipo de colesterol que supostamente aumenta o risco de ataques cardíacos (como assim, supostamente? – saiba mais em breve). Mas os efeitos da gordura saturada de colesterol (rica em colesterol) no sangue são, provavelmente, mais complexos. Por exemplo, a gordura saturada também aumenta o HDL-colesterol, o chamado colesterol bom. No entanto, o efeito da gordura Poli-insaturada (PUFA), sobre o colesterol no sangue e perfil lipídico tradicional é geralmente considerado mais favorável (e melhor) do que o efeito de gordura saturada.

 

Há poucos dias, um estudo científico (Março/2014) publicado na revista Annals of Internal Medicine pegou de surpresa as manchetes dos meios de comunicação ao redor do mundo. A principal razão para a atenção é o fato de que o estudo:

  • O estudo não detectou que as pessoas que comiam mais gordura saturada (ricas em colesterol) tinham mais doença cardíaca do que aquelas que comeram menos. Além disso,
  • O estudo não encontrou menos doenças cardíacas em pessoas comendo maior quantidade de ômega-6 PUFA ou dentre aqueles que comem mais gordura monoinsaturada.

O estudo merece a nossa atenção (de profissionais de saúde, principalmente), não só porque desafia a sabedoria atual e as diretrizes alimentares modernas, mas porque resume uma quantidade muito grande de dados a partir de três diferentes tipos de estudos. No entanto, por não ser um documento de acesso público à população geral, e por ser um estudo de referência, eu achei que seria adequado resumir as principais conclusões:

 

O desenho do estudo

O estudo foi realizado por pesquisadores do Reino Unido, EUA e Holanda e foi conduzido por uma equipe da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Foi uma revisão sistemática e uma meta-análise de dados científicos disponíveis sobre a associação entre a ingestão de ácidos graxos na dieta, os biomarcadores de ácidos graxos (medidos no sangue ou tecido adiposo, enfim, exames laboratoriais), ou de suplementação de ácidos graxos (gorduras) e do risco de doença arterial coronariana (DAC).

 

Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática da literatura científica, a fim de encontrar estudos para a sua meta-análise. Os estudos selecionados foram os estudos observacionais, bem como os ensaios clínicos controlados e randomizados. Para serem elegíveis para a essa metanálise, os estudos tiveram que cumprir rigorosos critérios.

  • Por exemplo, estudos observacionais eram elegíveis se os seus projetos fossem prospectivos com pelo menos um ano de acompanhamento e os participantes envolvidos  fossem da população em geral (e não pessoas com doença cardíaca conhecida) – ou seja, pessoas comuns.
  • Estudos de intervenção eram elegíveis se eles fossem randomizados e se tivessem registrados objetivos em DAC.

 

Um total de 72 estudos com mais de 600 mil indivíduos foram selecionados para a meta-análise final.

 

A fim de compreender os resultados do trabalho, é importante compreender que a meta-análise consistiu em três partes.

  • Em primeiro lugar, a associação entre a ingestão de diferentes gorduras dietéticas com a presença de DAC (doença coronariana, infarto e afins).
  • Em segundo lugar, a associação de medidas de biomarcadores de ácidos graxos (exames laboratoriais) com a presença/ausência de.
  • Em terceiro lugar, foi estudada a associação entre suplementos de ácidos graxos e DAC.

 

A gordura saturada, ômega-6 e gordura monoinsaturada não afetam risco.

Leiam com atenção e surpreendam-se!

Não houve associação estatisticamente significativa entre a ingestão dietética de ácidos graxos saturados (Gorduras saturadas) e o risco de DAC (doença coronariana: infarto e afins).

Além disso, a ingestão de ômega-6 PUFA não foi associada com o risco de doença coronariana. Os autores do documento, portanto, concluiram:

 

“Nossos resultados não apoiam claramente as orientações cardiovasculares que promovam o alto consumo de Ácidos Graxos Ômega-6 Poliinsaturados e que sugerirem a redução do consumo de ácidos graxos saturados totais (Gorduras saturadas)”.

 

Ao estudar medidas de biomarcadores (exames laboratoriais), é importante ter em mente que existem muitos tipos de ácidos graxos saturados e muitos tipos de PUFA (ácidos graxos poliinsaturados).

 

  • Ácido Palmítico e Ácido esteárico são gorduras saturadas que não foram significativamente associados com o risco de DAC.
  • No entanto, o Ácido Margárico foi significativamente associada com menor risco de doença coronariana. Ácido margárico é um ácido graxo saturado de cadeia ímpar. Estão moderadamente correlacionados com o consumo de leite e de produtos lácteos. Os resultados suportam a possibilidade de que as gorduras saturadas de cadeia ímpar, ou seja, consumo de leite de produtos lácteos, pode ser menos prejudicial em termos de risco para doença coronariana.
  • O ácido araquidônico foi o único ômega-6 ácidos graxos que se correlacionou com menor risco de doença coronariana.

 

Estudos de dietas e de biomarcadores não apresentaram nenhuma associação significativa entre a gordura monoinsaturada e do risco de DAC.

 

Cadeia longa dietética de ômega-3 PUFA de são protetores

Dieta com consumo de Ácidos Graxos Poliinsaturados (PUFA) de cadeia longa Ômega-3 foi associada a um menor risco de doença coronariana. Estes resultados foram apoiados pelos estudos de biomarcadores (exames e sangue) que mostraram alguma evidência de que os níveis circulantes de ácido eicosapentaenóico (EPA) e docosahexaenóico (DHA) (os dois principais tipos de ômega-3 PUFA) estão associados com menor risco de doença coronariana.

 

Ácido Alfa-linolênico foi neutro em termos de risco.

 

Por outro lado, a meta-análise de suplementos de Ácidos Graxos Ômega-6 e Ômega-3 sugere que a suplementação com estes nutrientes não afeta significativamente o risco de doença coronariana. No entanto, os autores apontam que mais dados são necessários porque os dados disponíveis são limitados. Há um grande estudo em curso sobre os efeitos do Ômega-3 PUFA na prevenção primária (VITAL) . Este estudo também abordará a eficácia da vitamina D.

 

As gorduras trans aumentam o risco de doença cardíaca

Não surpreendentemente, as gorduras trans na dieta foram associadas com um risco aumentado de doença cardíaca. No entanto, apenas cinco estudos prospectivos publicados contribuiram para esta análise.

 

Uma paisagem em mudança

Nos últimos cinco anos, uma série de relatórios (12345) concluíram que há uma fraca associação entre o consumo de gordura saturada ou principais alimentos que contêm Ácidos Graxos Saturados (carne e leite) e as risco de DAC.

O estudo acima certamente adiciona força a essas conclusões. Parece que o conselho para incentivar o consumo elevado de ácidos graxos poliinsaturados e baixo consumo de gorduras saturadas não é baseada em evidências científicas sólidas, e precisa ser repensada. Na verdade, o estudo sugere que a composição de gordura dietética tem um papel muito menor para o risco cardiovascular do que se pensava anteriormente.

 

Finalmente, algumas perguntas precisam ser feitas.

  • Em primeiro lugar: Este é o veredicto final? Bem, eu não acho. Mas, certamente, estes novos resultados precisam ser levados a sério.
  • Em segundo lugar, como é que as autoridades de saúde pública conseguem errar durante cinqüenta anos? Foi porque os dados científicos disponíveis não eram confiáveis, ou foi porque os dados foram mal interpretados? Será que as peças do quebra-cabeça tiveram que se encaixar para ir ao encontro de uma noção preconcebida?
  • E em terceiro lugar, como vamos fazer o que é certo? Como iremos apresentar essa nova visão sobre as gorduras alimentares e as doenças do coração e apresentá-las ao público? E como isso vai afetar a atual situação da indústria de alimentos?

 

Assim como ocorreu comigo (ao longo do tempo que venho buscando informações sobre o tema), tenho certeza que muitos especialistas irão ter que repensar suas orientações e afirmações aos seus pacientes, As recomendações dietéticas precisarão passar por uma nova abordagem com orientações que estejam baseados em estudos científicos e na medicina baseada em evidências. Então, talvez veremos em breve uma mudança de paradigma na forma como os profissionais médicos e agentes públicos irão educar a população sobre o efeito da dieta e da nutrição na saúde e na doença – notadamente da Gordura.

 

References   [ + ]

1. DocsOppinion

Author: Dr. Leonardo Alves

Médico, Cardiologista que entende que a internet pode e deve ser uma fonte inesgotável de informações para os pacientes.
CRMMG: 33.669 – Trabalha na Clínica Cardiovasc, em Teófilo Otoni, MG

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2 Comments

  1. Gostaria de ler esse meta-análise toda, você fornece o link? Já procurei e não achei. Ficarei muito grato

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